Museus Gratuitos

Em declarações ao semanário Expresso o Comendador Berardo defendeu recentemente a gratuitidade da entrada nos Museus Portugueses como forma de os promover e aumentar os seus visitantes, para além das “moscas”. vd. http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/426729

Refere Berardo ““É muito triste para mim ver, por exemplo, o estado em que se encontra o Museu de Arte Antiga, em Lisboa, sempre às moscas e com coisas tão interessantes no interior! Tem tanta gente empregada para vender meia dúzia de bilhetes por dia… Eu acho que os museus portugueses deveriam ser de entrada livre, para ser melhorada a cultura dos portugueses, e porque eu me lembro de quando era pequeno, quando não podia entrar por não ter dinheiro!”

Vale sempre a pena lembrar que para “os pequenos” os Museus Públicos são gratuitos, bem como para o público em geral aos domingos de manhã. Também devemos lembrar que os mesmos Museus Públicos não tem um investimento estatal comparável ao do Museu Berardo, cuja experiência de gratuitidade se provou muito interessante e vantajosa na captação de públicos e que, vivendo esses mesmos museus em condições limite para o seu funcionamento, todos os tostões contam, mesmo os das insuficientes entradas, mas creio que no essencial o Comendador tem razão. Se o acesso gratuito se traduzisse num substancial aumento de público e houvesse a par dessa medida um investimento sério no enriquecimento da oferta das lojas dos Museus e na captação de Mecenato (mais interessante com mais visitantes), é possível que, mesmo em termos económicos, o acesso livre se tornasse mais rentável do que a exígua verba conseguida pelas entradas actualmente. Mas tem sobretudo razão pela própria natureza dos Museus tal como foram constituídos depois da Revolução Francesa no Ocidente. Na sua base estava, e está, a ideia matricial da posse pública de bens que são referenciais para a identidade colectiva e que por isso mesmo foram retirados a pariculares ou à igreja, ou adquiridos com dinheiros públicos, para que a sua fruição fosse universalmente possível. É claro que muitos Museus que são pagos tem tantos visitantes como os Museus gratuitos (os ingleses por exemplo), mas é difícil encontrarmos noutros países um sentimento de pertença pública desse património como encontramos em Inglaterra e que retorna em favor dos Museus e do património neles guardado, em doações, subscrições públicas para aquisições ou tão simplesmente a fruição natural e regular (extra-turística, diríamos). No estado actual dos Museus e no papel que lhes cabe de preservação do património, de investigação sobre as colecções e de produtores de eventos, o peso das receitas de bilheteira é irrisório e na captação de verbas para as suas actividades creio sinceramente, como Berardo, que mais falta faria muito mais público do que as verbas das entradas. Com entradas pagas ou sem elas, porém, como qualquer merceeiro saberá, o que não é possível é procurar retorno onde não há investimento.

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~ por Joaquim Oliveira Caetano em Outubro 18, 2008.

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